Sobreviver
Todos nós somos sobreviventes. Desde o instante zero da concepção ao último sopro de vida, a nossa vida faz-se de sobrevivência, da ultrapassagem sistemática de todos os obstáculos e imprevistos que nos acontecem. Resistir a uma gravidez, a um parto, à infinidade de bactérias, micróbios e doenças com que a vida se salpica. E os tombos, acidentes e todo o género de percalços. Existirmos, vivermos, significa exactamente isso, sobreviver.
Contudo, alguns de nós são mais sobreviventes que outros. É o caso da Carolina. Nasceu alguns dias antes do Natal. Nessa noite, a mãe foi duas vezes para a maternidade e duas vezes voltou para trás: ainda falta, ande muito, isso lá para a tarde. Mas não foi “lá para a tarde”, foi à hora de almoço, quando o sangue começou a escorrer pelas pernas abaixo, quando disse ao marido “chama os bombeiros que, daqui, já não saio”. A Carolina veio ao mundo no chão do quarto do pais, com a mãe de joelhos e o pai a fazer as vezes de parteiro. Foi assim mesmo, na maior das aflições que aqueles pais viram a sua filha nascer. E nasceu bem – apesar dos bombeiros só terem chegado depois, apesar do pai nunca ter visto sequer um parto, apesar da mãe ter ficado toda rasgada e a Carolina ter esperado pelos bombeiros já neste mundo, embrulhada num cobertor, com o cordão ainda a ligá-la à mãe. Mãe e filha estão bem.
Falei com o pai no dia seguinte. O pai não consegue esquecer o sangue a molhar todo o chão do quarto, o sangue a escorrer sobre ele e a mãe, a filha ensanguentada puxada pelas suas próprias mãos. Quando, umas horas depois, limpa o quarto, chora. Assim como chora abraçado ao cunhado, que chegou durante o parto e perante o que viu e a impotência para fazer o que quer que fosse perguntou pelo “funil” para pôr no pescoço do cão. Choram os dois.
Assistir ao parto do meu filho foi violento. Porque é um momento único onde a dor e a felicidade vivem de mão dada. Ver um filho nascer fica-nos gravado para sempre na memória. Muitos dos pormenores esbatem-se com o tempo mas, a recordação do sofrimento e a recordação do primeiro choro nunca mais vão embora. E um homem sofre perante a dor que vê (e ouve) na sua mulher. Imagino o quanto devastador será para um homem sem qualquer formação médica fazer o parto à sua mulher, puxar o seu filho de dentro dela. A dor. A mistura antagónica e violenta de sensações. Depois, o desespero por uma ajuda que nunca mais chega. E estarão bem? Ficarão ambas bem?
Todos nós somos sobreviventes. Desde o momento zero. Mas aqueles meus amigos e a sua Carolina são ainda mais sobreviventes que a maioria de nós. Desejo-lhes as maiores felicidades.

6 Trocas no post:
At 3:55 PM, bruno_ said…
Belo post... puxa, até me arrepiei de imaginar a situação... muito duro... abraço!
At 11:57 AM, Trocas e Baldrocas said…
Pois eu espero ver mais atitudes destas dos homens. Pois eu espero que vivam a alegria de ser mãe e pai com tanta intensidade quanto a que houve nop nascimento.
At 2:04 PM, Susana said…
Tanta intensidade de sentimentos vividos no nascimento da Carolina! E tanta verdade nestas palavras! Beijinhos
At 3:57 PM, Anónimo said…
Caramba, que até me arrepiei só de imaginar!
Deve ter sido uma aflição, chiça! (Perdoem-me o termo, mas acho que a situação o exige)
Xana
http://umanodeti.blogspot.com/
At 10:26 AM, daddy said…
Arrepiante é mesmo a palavra certa. Aquele momento ficará tão marcado neles de uma forma que apenas poderemos imaginar.
At 2:47 PM, AnaBond said…
Ficaram bem, e é o que tem de se tirar desta história.
(mas fiquei com lágrimas nos olhos...)
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