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Quarta-feira, Abril 27, 2005

Para começar bem!

Comecemos bem e como todas as histórias, pelo princípio!!
O objectivo é colocar textos de nossa autoria, pois então será.
Ter um filho é uma coisa natural, dizem alguns, para mim foi mais do que isso, foi uma experiência única que resolvi explicar aos meus filhos através de um texto, especialmente escrito para cada um deles (quando o consigam ler e compreender).
O primeiro, para o primeiro filho (o pimpolho G.) reza assim:

"Por querer, porque sim !!

Foi por querer, por achar que algo mais nos faltava que decidimos que te queríamos.... muito!
E então, como quem quer muito uma coisa buscámos-te, procurámos-te durante 1 ano e meio, mas, não te conseguimos encontrar.
Sem perder o alento e a pensar que demoraria muito mais tempo resolvemos não pensar no assunto, para não torrar a psique (e os seus infindáveis segredos que condicionam a nossa vida, ainda que inconscientemente).

Os dias, semanas, meses passaram e 1 dia alguém achou que eu tinha mais qualquer coisa comigo, para além do habitual... estava certa, eras tu!
Parecia uma brincadeira. Incrédula, confusa, feliz e cheia de expectativas quis acreditar que, finalmente eras tu !!
Duas semanas mais tarde, num cadeirão de pele a uma temperatura agradável, depois de um exame empírico, a confirmação... sim senhor, tu estavas a caminho.
Não foi nesse momento que te tornaste senhor de mim, mas antes, logo naquele dia em que vi as bolinhas passarem a riscas e o branco tornar-se vermelho. Sim, foi nesse momento que pensei: Não te conheço mas és meu, não te sinto mas estás comigo.
O mundo de hoje é fantástico, o que tem de bom pode também ter de menos bom mas, fiquemo-nos pelo bom – a tecnologia. Que ideia maravilhosa poder ver um ser que vive mas, ainda não o é na sua plenitude e poder chamar-lhe FILHO, o meu FILHO.
Assim foi; pequeno, quase invisível mas lá, firme, pujante, VIVO !
Pequenas gotas formaram-se nos meus olhos e com força, para que elas não saíssem, sorri... de felicidade extrema.
Sim, nesse momento fui feliz, como nunca e foi bom, muito bom.
Depois foi viver um estado (dizem) de graça, iluminado, exfusiante, enebriante, viciante e maravilhoso, durante 9 meses, 270 dias, muitos momentos únicos vividos na 1ª mas com uma 2ª pessoa !

Fomos um do outro, só os 2 ...

O meu estômago revolvia-se mas era por Ti, o meu corpo deixava de ser meu mas era para Ti... eu fui a tua casa e tu a minha vida, então e sempre !
Quase não descansei até ao dia em que te senti, pela 1ª vez. Um só toque, forte e seco, vindo de dentro de mim só podias ser tu – pensei!

E eras...

A partir desse dia, se já estava como se pisasse nas nuvens ainda fiquei mais elevada... tudo era único, autêntico e meu, só meu.
Só pensava em ver-te novamente, através do monitor a preto e branco mas, onde tudo se distinguia cada vez mais. O teu rosto, o teu corpo, as tuas mãozinhas e pézinhos, os teus pequenos movimentos ou apenas o teu sono silencioso e tranquilo.
Foi ver-te e ver-me crescer por ti, para ti, para que coubesses no espaço que te podia oferecer.
E tu aproveitaste para ficar forte, para te preparares para o dia em que deixarias de ser só meu para ser de todos.
Esse dia chegou, hoje sinto que depressa demais, e por ser a 1ª vez também foi mais difícil, mais demorado. O principal é que estavas bem!!

........

Entrei sozinha e pelo meu pé, nunca me senti tão só como naquele momento.
Achei que ninguém iria entrar e ficar comigo até que tu decidisses que era a tua hora, mas enganei-me. O pai arranjou forma de nos fazer companhia, de me acalmar e de me ajudar a apresentar-te ao mundo!
Durante horas esperámos, com toda a parafernália que nos segue numa situação e locais semelhantes; o ambiente clínico nunca foi um espaço acolhedor, pior ainda se associarmos todo o desconforto que sentia. Mas era tudo por ti!

As horas passavam, os silêncios alternavam com os sons próprios do ambiente que nos rodeava...
A noite caíu e a dor e o desconforto aumentaram, mais e mais.
A madugada ainda mal tinha começado quando alguém disse: “É agora”. E foi...
Abri os meus braços para te acolher e os meus olhos para te conhecer, finalmente. Depois de tanta intimidade entre nós decidiste vir ao mundo.
O primeiro instante em que te pousaram no meu peito olhámos um para o outro e eu disse: “Olá coisa fofa!”, e tu ficaste a ouvir o bater do meu coração acelerado, como se ainda estivesses dentro de mim, no teu espaço.
Foi o 1º momento mais lindo da minha vida!! Mais uma vez fui FELIIIIZZZZZZ !!!!..........
O pai olhou e não conseguiu falar, só queria saber se estavas bem e quanto pesavas. Quando a enfermeira te levou ele correu atrás dela e quando voltou segredou-me ao ouvido: “Quase 4 quiilos... 3.920 Kg”.
Deu-me um beijo e pediram-lhe para sair.
Mais uma vez fiquei sozinha e já com saudades da barriga que tu fazias, fizeste durante nove meses !
Só te queria ver, ter-te junto a mim, naquele dia e para sempre.
Nâo tive de esperar muito porque, pouco depois estavas comigo, já vestido e à espera do colo quentinho.
Como eras lindo e único. Apaixonei-me, mas era uma paixão diferente, era uma coisa profunda, de entranhas; nada, nem ninguém me podia separar de ti.
Vi-te adormecer ao meu lado e então descansei. O último pensamento que atravessou a minha mente e parou em frente aos meus olhos foi: “Hoje começa o resto da tua vida, com o TEU filho!”
Adormeci e o amanhã era um novo dia, em todos os sentidos !"

Brevemente colocarei o do 2º.
Canhota

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