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Sexta-feira, Março 04, 2005

Outras músicas

Gosto muito de música. Embora nunca tenha conseguido distinguir uma nota de outra, dá-me imenso prazer ouvir música. Desde que me lembro, sempre pedi discos (sim, ainda sou do tempo do velho vinil) como prenda de natal ou de aniversário. Mais tarde, quando as minhas responsabilidades financeiras ainda eram uma fatia pouco significativa do meu ordenado, era em música que gastava uma parte substancial do meu dinheiro. Na verdade, música sempre foi a minha segunda despesa no saldo final de cada mês, sendo o primeiro lugar, obviamente, ocupado pela categoria “livros” – o que é uma outra história...

É claro que, neste momento, a reengenharia financeira a que um filho e uma vida a dois obrigam assim como, para completar, a situação económica que o nosso país atravessa não me permitem aumentar a colecção musical como gostaria, contudo, como se costuma dizer, “a fome aguça o engenho” e a internet ajuda muito, pelo que, o número de álbuns vai aumentando a um ritmo que considero simpático.

Ainda por cima, eu gosto de todos os géneros musicais. De música paquistanesa ao hit-single mais recente dos tops, ouço e aprecio tudo. O que resulta em ouvir música em casa, no carro e, no emprego, trabalhar sempre com os auscultadores enfiados nos ouvidos. Posso resumir a minha relação com a música como um pêndulo do meu estar interior, com cada momento, ocasião ou estado de espírito, dotado de uma banda sonora “adequada”.

No início, o Gordinho não gostava de música. Para meu espanto, era-lhe totalmente indiferente. Mesmo as cantilenas dos brinquedos infantis não despertavam nele a mais pequena reacção. Julgo que, por vezes, até causavam o efeito contrário, deixando-o irritado com o “barulho”. Bem tentámos música clássica, jazz, comercial, tudo! Mas ele preferia a luminosidade garrida da televisão. Contudo, um espanto nunca vem só, nem devemos nunca subestimar a capacidade inata que os nossos gordinhos e gordinhas têm em surpreender-nos. Gradualmente, ele começou a “saber” de onde vinha a música. No seu andarilho, deambulava pela sala e ficava a olhar para as colunas com uma estranheza que, e aí aparece o espanto, torna-se rapidamente num acto de adoração. Por esta altura, passámos a “bater” exclusivamente na música infantil – que sempre menosprezei. Mas como o “peixe morre sempre pela boca”, foi exactamente essa sonoridade que o aliciou para o fascinante mundo da música.

Em muito menos tempo do que alguma vez julguei possível, a banda sonora lá por casa passou de Nick Cave para José Barata Moura, de jazz ou música clássica para “as músicas da Carochinha”, para gáudio de um Gordinho que bate palminhas ao som da música, dança e, nos intervalos entre canções de um conjunto já tão gasto de CDs reclama pela falta e levanta as duas mãos, com as palmas bem abertas para cima, no clássico sinal de “não há”.

Confesso que continuo a não apreciar música infantil embora reconheça que “acalma a pequena fera”. Embora no carro e no emprego ainda possa escolher a banda sonora “adequada”, já deito “a Joana come a papa” pelos olhos. Pior ainda são as vezes em que ouço uma dessas músicas e fico com ela no ouvido. Por vezes chego ao emprego a trautear o “olha a bola manél”, o que é muito desagradável. É claro que esta situação também pode gerar ocasiões, no mínimo caricatas, daquelas que só os pais entendem como, por exemplo, ir à casa de banho no emprego e lavando as mãos junto a um colega, estar inconscientemente a trautear uma destas canções, e ele perguntar-me:
- Então, já ouviste hoje o CD?
- Já, e tu?
- Hoje já vi duas vezes a Pocahontas e penteei todas as Barbies com a minha filha...