Nunca me senti tão próximo de ti como agora. Mesmo quando a distância própria da idade cresce entre nós como uma urgência. Tu agora tão mais velhinho, tão mais diferente desse outro homem que vive ainda nas minhas memórias de criança. Eu recordo tudo, pai. É como o teu casaco de cabedal que se fez curto para o teu corpo quando tinhas a minha idade e que serve perfeitamente neste meu corpo tão diferente do teu. Visto o teu casaco como se vesti-lo fosse vestir a memória que acumulo de ti, pai, dos tempos em que me oferecias todos os dias um Lego novo, em que me levavas contigo para o emprego e em que toda a gente se metia comigo porque era muito pequenino e muito teu filho. E eu gostava muito de ser teu filho. Eu recordo.
Entre hoje e aquela tarde passaram-se pouco mais de vinte anos. Eu recordo. A dificuldade da tua voz, os teus olhos molhados, a serenidade imponderável de tudo o que se confronta com um final. Tu enfaixado. Tu a sofrer. Tu tão dolorosamente ali. Tu a perguntar.
- Onde estamos? - Perguntaste do fundo inexpressivo de um silêncio imenso devorador.
- Estamos a entrar na Ponte, pai, junto ao Cristo-Rei. - Respondo-te. Suspenso sobre ti, agarrado a ti, pendurado no teu corpo tão estranhamente vago e absoluto naquela maca.
Recordo tudo isso como se ali estivéssemos, como se o tempo não tivesse de todo passado. Como se recordar também todas as poucas vezes em que me bateste e a ira cega no teu olhar não tivessem de todo importado. Como recordo esse eu criança tão inesperadamente confrontado contigo todo partido, de ossos tão inexplicavelmente estilhaçados dispostos ali aos meus olhos, tão reduzidos naquela maca, naquela cadência urgente própria da ambulância a caminho de São José. Eu tão sério, tão seguro de mim, tão tranquilamente certo da inocência das minhas ideias. Depois dizes-me. Tu disseste:
- Olha, nós nunca mais vamos passear ao Cristo-Rei.
É aí que o mundo me pára, são nessas palavras que as minhas certezas, que a minha certeza da nossa indiferença para com a morte se apaga de uma vez só e a vida desaba a meus pés. E eu não te sabia dizer que não, não te sabia dizer que estavas errado, que aquela dor, aquele corpo martirizado, nada significavam aos meus olhos. Via o Cristo-Rei desvanecer-se, apressado nas janelas difusas da ambulância, a sirene mortal da ambulância, a urgência de uma vida atravessada entre o ser e o nada. E a tua mão na minha. A tua mão enorme que poderia amparar um mundo. E a minha, de criança, tão pequena, tão inocentemente pequena. A minha mão que umas horas antes destruía a fechadura da porta da cozinha porque não fazia mal, porque amanhã os homens iriam destruir aquela porta e construir de vez o tão desejado e planeado arco entre a cozinha e a marquise como tu e a mãe tanto desejavam. E de repente, nada disso significava rigorosamente nada. E chorei, pai. Agora já não tenho vergonha de o dizer. Nesse momento chorei como nunca tinha chorado, com medo da morte, com medo da minha vida futura sem ti nela. Chorei porque preferia que me batesses a não te ter de todo. E ainda me lembro da ira no teu olhar quando me batias, da vez em que me puxaste da cama e me atiraste para o chão, da vez em que me encolhi com medo a teus pés – a última vez que me tocaste, a única vez que tive medo de ti. Mas, acima de tudo, recordo-te naquela maca urgente a caminho de São José. A tua bacia, fémur e costelas partidas. O que restava de ti depois de teres sido esmagado por aquela máquina, enquanto, em casa, eu aprendia a usar o martelo para destruir a fechadura da porta da cozinha. Nunca mais vamos passear ao Cristo-Rei. Nunca mais.
Aos domingos paravas o carro na descida. A mãe esperava sentada no banco do Mini, ou caminhava um pouco, junto ao carro. Nós íamos mais longe, descíamos um pouco mais do caminho que me dizias dar até debaixo da ponte. A minha vida crescia na simplicidade dessas certezas, na tua palavra, pai. E agora penso como era tão feliz sabendo tão pouco. Chorei tanto, pai. Chorei tanto com medo que morresses, com medo de nunca mais voltarmos ao Cristo-Rei, pai. Quando a prima bateu à porta a meio da tarde com as tuas roupas na mão e aquela expressão na cara, eu não chorei. Quando cheguei com a mãe ao hospital e te vimos deitado na maca a gritar com dores, eu não chorei, nem sequer quando nos disseram que tinhas de ser transferido para Lisboa porque era grave e a mãe chorou e gritou muito, eu não chorei, pai. Só quando me perguntaste onde estávamos e me disseste que nunca mais voltaríamos ao Cristo-Rei. Só aí me caiu o mundo inteiro e todo de uma só vez como um golpe fatal. Só aí me senti tão fragilmente órfão, tão desamparadamente só. Só aí me ensinaste que a morte passa por nós uma e outra vez até ao momento em que fica para sempre e temos de aprender a viver com a ausência como se não passasse de uma outra forma de presença. Só aí, pai. E eu era tão novo pai, ainda tão desesperadamente criança, e tu ainda eras tão mais novo, tão mais direito e forte e cheio de esperança num amanhã qualquer.
Depois dessa tarde, nunca mais voltámos ao Cristo-Rei. E nem sei porquê. Faz mais ou menos vinte anos que lá não vamos. Apenas sei que fomos mais fortes que todo o mal que te dilacerava por dentro. Sei que, depois de todas aquelas lágrimas, raras foram as vezes em que voltei a chorar. Sei que escapámos a essa morte que te queria roubar de mim. Sei que agora sou pai, pai. Que agora és menos novo, menos direito, e talvez os teus planos, as tuas esperanças, se desenhem num futuro um pouco mais breve. Desconfio que talvez o teu casaco de cabedal tão velhinho e roçado que continuo a usar te sirva novamente nesse corpo um pouco mais franzino, mais arqueado, muito mais cansado que há vinte anos. Mas sei que quero voltar contigo ao Cristo-Rei. E quero levar o meu filho, o teu neto, em nossos braços. E quero que nos fotografem aos três nesse caminho cheio de ervas secas, galhos e recordações de um tempo que já passou. Porque quero que possamos encarar o tempo nos olhos e dizer: ainda somos todos vivos, ganhámos vinte anos à morte. E mesmo sendo seco por natureza e poupado na palavra pronunciada (como tu), quero que saibas o quanto te agradeço, pai, tanto, tanto.