Dois doidos e meio
Não percebo nada de crianças. Nunca percebi. Acho que nunca irei perceber. Já aprendi muitos procedimentos e processos característicos à manutenção de uma criança em estado operacional – biberões, fraldas, papas, ben-u-rons, etc – agora, entender como funciona uma criança por “dentro”, no seu raciocínio, na sua visão do mundo, não entendo. Sei que, quando vou a uma livraria, vejo estantes inteiras pejadas de livros interessantíssimos sobre as relações invisíveis da criança com todas as grandes ou pequenas coisas que a rodeiam, portanto, há muita ciência, muita técnica, acima de tudo, muitas abordagens possíveis ao “pensar” de uma criança.
Na minha ignorância típica de um pai sem formação específica em pedagogia ou outras ramificações associadas ao tema, julgo que nesta altura, tudo se apresenta aos teus olhos como um leque infinito de combinações e conjunções possíveis. Mesmo as coisas mais loucas, parecem-te possíveis. Nós, os adultos (eu e a mãe, neste caso muito concreto), devemos ter um papel orientador, mantermos e mostrar um rumo “certo” para a relação do nosso filho com o mundo. É o que todos nós esperamos dessa entidade abstracta que dá pelo nome de pais. Contudo, vejo em inúmeros casos que vou ouvindo e especialmente nos nossos próprios exemplos que, na prática (e estamos a falar de pequenas coisas, claro, porque isto não se deve entender de uma forma dramática) que funciona ao contrário, ou seja, nós – os pais – é que nos adaptamos à relação da criança.
Estou na casa de banho. Olho para o bidé e vejo lá dentro um osso de plástico, o do Ben. Assim como o rádio está dentro da banheira. Assim como o comando da televisão está na cozinha quando a televisão berra na sala e eu não consigo desligar aquela porcaria sem o comando!- Como é que isto veio aqui parar?!
- Foi o Gordito – responde a mãe.
O meu filho ainda não sabe que a abertura do vídeo serve para as cassetes e não para as mãos. Desconhece que os DVD se riscam quando atirados para o chão e pisados e empurrados. Que, quando desliga o computador no botão, tudo o que lá estávamos a fazer desaparece irremediavelmente ou que a gaveta dos CD não é para roer ou para puxar. Combinações – o que encaixa onde, o que se pode comer, o que se pode abrir, o que se pode atirar ao chão – são um mundo infinito de possibilidades.
Abro a porta do frigorífico e digo:
- Está um saco de pão aqui dentro! Foi o Gordito?
- Não, fui eu que me enganei. Mete no congelador, sim? – Responde a minha mulher.
Assim como me liga para o emprego a perguntar onde deixou os óculos.
- Os de “ver” ou os de sol?...
E depois digo-lhe onde os vi pela última vez. Alguns sítios são recorrentes.
- Ah! Pois é! Aqui estão!
De vez em quando, desaparecem chinelos, pantufas, a carteira, o telemóvel. No outro dia passámos pelo carro da minha mulher e ela reparou que tinha deixado o vidro aberto.
- Tens o vidro aberto há quatro dias?!
Apesar de ter entrado chuva, ainda há boa gente e ninguém levou o rádio, ou o próprio carro!
Com o passar do tempo, este género de combinações bizarras tornam-se normais. Se um destes dias me aparecer um extraterrestre em casa, talvez não estranhe muito. Ou se o Gordito conseguir combinar a televisão com a máquina de lavar louça, tudo bem, a sério. A tolerância ao improvável aumenta como nunca pensei possível.
No outro dia, quando cheguei ao elevador, reparei que me tinha esquecido de pentear. Estava perfeitamente de cabelo no ar, o que é normal, afinal um ar punk num fato assenta sempre como uma luva. Vá-se lá perceber porquê, mas saí do duche como todos os dias, repeti os mesmos gestos como todos os dias e, esqueci-me de me pentear – ok, tudo bem, penteei-me com os dedos enquanto o elevador descia.
Chegado ao emprego, reparei que os meus colegas estavam a olhar muito para mim... As primeiras vezes não ligo, a seguir começo a achar que é a mania da perseguição, depois ainda, tenho a certeza que algo não está bem – vou para a casa de banho inspeccionar-me. Afinal o nó da gravata não me correu nada bem e a gravata descia-me do pescoço até meio do peito – só! Estava lindo, de mini-gravatinha ao pescoço. Não admira que olhassem tanto! Mas tudo bem, é perfeitamente aceitável estarmos ou sermos todos doidos lá por casa. Afinal, é o nosso filho que nos ensina a combinar, a misturar, a experimentar, tudo aquilo que julgávamos impossível. Quem sabe um dia destes vá para o emprego de pijama, ou com outra combinação qualquer mais escabrosa. Quem sabe...
ADENDA:
Na noite em que publico este texto, sou, como habitualmente, o último a deitar-me. Apago as luzes, fecho as portas. Descubro no escuro o caminho para a cama sem que tenha realmente necessidade de o tactear. Quando puxo os lençóis e me sento, percebo que me sentei sobre "algo". Levanto-me de um pulo, tacteio, reconheço o objecto estranho. Pergunto à minha mulher:
- Amor, o que é que está uma lata de atum a fazer na cama?
- Deve ter sido o Gordito - Responde-me estremunhada.
Pouso a lata na mesa-de-cabeceira e deito-me, finalmente, sentindo o corpo afundar-se na paz suave da cama. Não consigo evitar o sorriso ao sublinhar, no meu pensamento, a incerteza da palavra «deve».
